O ofício da arte carrega consigo inúmeros potenciais: a oportunidade de transição de carreira, o auxílio para superar dificuldades pessoais, o domínio de uma ferramenta que pode ser propagada a outros. Prova disso foram as experiências vividas durante uma oficina de crochê realizada nas dependências da Assembleia Legislativa do Paraná. A atividade integra o projeto “A Arte é um Bom Negócio”. A iniciativa é da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Paraná, presidida pelo deputado Nelson Justus (União), em parceria com a Escola do Legislativo e o Sebrae/PR.
O artista Júlio César Ferreira viu no projeto uma oportunidade para reforçar sua luta de quase três décadas contra a drogadição. Ex-morador em situação de rua, condição que abandonou nos últimos três meses quando passou a morar em um hotel social gerido pela prefeitura de Curitiba, ele soube da oficina após ver a programação colada nas paredes do Centro Pop, instituição que oferta diversos serviços para a população que não tem lar. “Acho que esse edital foi feito para mim”, brincou Ferreira.
Ele esteve entre os 20 alunos que aprendiam num espaço reservado nos fundos do Plenário como realizar os pontos básicos do crochê, orientados pela professora Juliane Gonçalves, que os ensinava a confeccionar uma bolsa. Ferreira buscou no aprendizado do ofício ampliar seus conhecimentos artísticos, somando-o a sua experiência na pintura. Algumas de suas telas o acompanharam na oficina.
Difusão de conhecimentos
A educadora social Olívia de Carvalho Vivi também estava entre as alunas que manuseava as agulhas de crochê pela primeira vez. Servidora municipal de Curitiba há 14 anos pela Fundação de Ação Social (FAS), ela pretende aprender o ofício para ensiná-lo a pessoas atendidas nas unidades do Centro POP da Capital. “O objetivo é trabalhar a mente deles. De repente, com os aprendizados, eles podem ter uma oportunidade para torná-lo um trabalho depois”, conta a educadora. “O principal objetivo é ajudá-los a sair daquele ambiente [de vulnerabilidade], de pensamentos às vezes não muito positivos”, refletiu. A entidade atende muitas pessoas em situação de drogadição.
Também a artesã Juliane Gonçalves, que ensinava o ofício aos inscritos, encontrou no aprendizado do crochê uma forma de se recolocar no mundo, após trabalhar em funções que a frustraram. “Em algum momento vi um refúgio na arte, em fazer o crochê eu nem imaginava que aquilo se tornaria a minha profissão. Que eu realmente seria uma artesã e viveria daquilo”, conta a professora. Ela se tornou artesã há seis meses.
Para ela, a iniciativa da Assembleia Legislativa com o Sebrae representa uma oportunidade única. “É um suporte que eu não tive lá atrás, eu busquei sozinha”, relembra a artesã, que aprendeu a técnica do crochê há seis meses. “As pessoas não têm noção de que elas podem viver disso. E ninguém busca elas em casa e fala: ‘vamos aprender a fazer alguma coisa e viver disso’”.
Foto: Valdir Amaral/Alep